terça-feira, 13 de outubro de 2015

Um diagnóstico chamado "Fuga"

"-A Licas está diferente, não achas? Não sei o que se passa com ela. Perdeu o foco, não achas?
-Eu não acho nada. Não a conheço assim tão bem. Parece-me animada: está sempre com uma piada e tudo.
-Não percebes nada disto. Ela está perdida! 
-Parece-me feliz...
-Ela não está feliz! Ela só acha que está feliz! Vocês homens não percebem nada disto! Vou ligar a quem entende, uma Maria."

Estas conversas sucedem-se. Eu finjo que não oiço, que não vejo. Finjo que não é comigo, que todos os zunzuns não são sobre a minha descompensação; que todos não dizem que deveria procurar ajuda, que estou a compensar coisas, que ando a comer demais, a beber de mais a fumar de mais. Só não ando a foder de mais. 
Pensam todos que não ando a foder de mais.
Depois de meses destes sururus, procurei ajuda junto da pessoa que mais eficazmente me podia ajudar: eu própria. Muitas noites de introspecção induzida com mantras de whisky e odes ao vinho, fizeram-me encontrar o diagnóstico, na Infopédia, que ao que parece que é bem mais eficaz que livros de auto-ajuda ou camas alheias.

"Fuga"


1. ato ou efeito de fugir; retirada rápida; fugida; evasão

2. ato de não fazer ou assumir o que se devia

3. subterfúgio; evasiva

4. ato de deixar escapar algo que devia ser mantido em segredo





A minha doença é tão simplesmente esta definição. Em fuga do mundo, em fuga do destino que se me depara como fatal, como um abismo. Estou a fugir de todos e de ninguém, dos outros e de mim. E a culpa é dos sentimentos que falam de mais, dos olhos que falam de mais, dos sorrisos que falam de mais e das pessoas que nem precisam de mexer os lábios para falarem de mais!




Agora que há diagnóstico, pode ser que um dia trate da cura. Mas não hoje, que acabou o whisky e ainda tenho as sapatilhas calçadas.




Maria Luís

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